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quarta-feira, 21 de setembro de 2011

Verdes Mares


O primeiro capítulo de " Iracema " , obra  prima  de José de Alencar , é  pura poesia em prosa. Vejam   como  há  métrica e ritmo nas  frases  que  descrevem com maestria  os  verdes  mares  da terra natal  do  escritor  cearense,  de onde  parte uma jangada  levando  três pessoas : um guerreiro, uma  criança e um rafeiro.



Verdes Mares

   José de Alencar
Verdes mares bravios de minha terra natal, onde canta a jandaia nas frondes da carnaúba; 
Verdes mares que brilhais como líquida esmeralda aos raios do Sol nascente, perlongando as alvas praias ensombradas de coqueiros.
Serenai verdes mares, e alisai docemente a vaga impetuosa, para que o barco aventureiro manso resvale à flor das águas.
Onde vai a afouta jangada, que deixa rápida a costa cearense, aberta ao fresco terral a grande vela?
Onde vai como branca alcíone buscando o rochedo pátrio nas solidões do oceano?
Três entes respiram sobre o frágil lenho que vai singrando veloce, mar em fora;
Um jovem guerreiro cuja tez branca não cora o sangue americano; uma criança e um rafeiro que viram a luz no berço das florestas, e brincam irmãos, filhos ambos da mesma terra selvagem.
A lufada intermitente traz da praia um eco vibrante, que ressoa entre o marulho das vagas:
— Iracema!...
O moço guerreiro, encostado ao mastro, leva os olhos presos na sombra fugitiva da terra; a espaços o olhar empanado por tênue lágrima cai sobre o jirau, onde folgam as duas inocentes criaturas, companheiras de seu infortúnio.
Nesse momento o lábio arranca d’alma um agro sorriso.
Que deixara ele na terra do exílio?
Uma história que me contaram nas lindas várzeas onde nasci, à calada da noite, quando a Lua passeava no céu argenteando os campos, e a brisa rugitava nos palmares.
Refresca o vento.
O rulo das vagas precipita. O barco salta sobre as ondas; desaparece no horizonte. Abre-se a imensidade dos mares; e a borrasca enverga, como o condor, as foscas asas sobre o abismo.
Deus te leve a salvo, brioso e altivo barco, por entre as vagas revoltas, e te poje nalguma enseada amiga. Soprem para ti as brandas auras; e para ti jaspeie a bonança mares de leite.
Enquanto vogas assim à discrição do vento, airoso barco, volva às brancas areias a saudade, que te acompanha, mas não se parte da terra onde revoa.

(“Iracema" - capítulo 1 )

sábado, 19 de junho de 2010

Saramago por ele mesmo


Saramago recebendo o Prêmio Nobel de Literatura, em 10 de dezembro de 1998



Não poderia  deixar de  homenagear  aqui  um dos maiores  escritores da  atualidade,  José Saramago  , prêmio Nobel de literatura ,  que faleceu  ontem   aos 87  anos . 

Tudo  sobre  ele  já foi  dito em outras fontes ,  portanto  vou apenas  colocar  alguns pensamentos desse  grande escritor  que  foi considerado por Harold Bloom o mais  talentoso  romancista da  atualidade " .


Algumas citações de Saramago

"Só sou alguém que, ao escrever, se limita a levantar uma pedra e a olhar para o que está por baixo. Não é culpa minha se de vez em quando descubro monstros" .

"Antes, caíamos no tópico de dizer que a direita era estúpida, mas hoje em dia não conheço nada mais estúpido do que a esquerda" .

" Se pode olhar , vê. Se pode ver , repara ".

" Não  tenha pressa, mas  não perca  tempo " .

" O que as  vitórias têm de mau é que não são definitivas . O que as  derrotas  têm de  bom , é que  também não são  definitivas " .

" Procuro viver  de forma  a não  envergonhar  a criança  que fui " .
  
ooOoo

Foto by : ELECTRONIC IMAGE/Divulgação


 

terça-feira, 6 de abril de 2010

A Arte de Ser Feliz


(Cecília Meireles) 

Houve um tempo em que minha janela se abria sobre uma cidade que
parecia ser feita de giz. 
Perto da janela havia um pequeno jardim quase seco. Era uma época de estiagem, de terra esfarelada, e o jardim parecia morto. Mas todas as manhãs vinha um pobre com um balde e, em silêncio, ia atirando com a mão umas gotas de água sobre as plantas. 
Não era uma rega: era uma espécie de aspersão ritual, para que o jardim não morresse. E eu olhava para as plantas, para o homem, para as gotas de água que caíam de seus dedos
magros e meu coração ficava completamente feliz.

Às vezes abro a janela e encontro o jasmineiro em flor. 
Outras vezes encontro nuvens espessas. 
Avisto crianças que vão para a escola. 
Pardais que pulam pelo muro. 
Gatos que abrem e fecham os olhos, sonhando com pardais.
Borboletas brancas, duas a duas, como refletidas no espelho do ar. 
Marimbondos que sempre me parecem
personagens de Lope de Vega. 

Às vezes um galo canta. Às vezes um
avião passa. Tudo está certo, no seu
lugar, cumprindo o seu destino. E eu me
sinto completamente feliz.
Mas, quando falo dessas pequenas
felicidades certas, que estão diante de
cada janela, uns dizem que essas coisas
não existem, outros que só existem
diante das minhas janelas, e outros,
finalmente, que é preciso aprender a
olhar, para poder vê-las assim.

ooOoo

Cecília Meireles , como qualquer pessoa , queria ser  - e  foi - feliz .  Sua infância  foi marcada pela dor e solidão, pois perdeu a mãe com apenas três anos de  idade e  não chegou a conhecer o pai , que  morreu antes do seu nascimento . Foi criada pela  avó materna  e começou a  escrever suas primeiras poesias  por volta dos nove  anos de  idade .  

Teve uma  experiência traumática na sua vida ,  o suicídio do primeiro marido. Mas  superou  a perda  persistindo na vontade de ser  feliz  ,  encontrando   estabilidade emocional  e afetiva ao lado do segundo marido .  
Foi uma mulher de fases  - como   a maioria das mulheres   - e sua poesia , simples , profunda  , cheia de  simbolismo  ,  retrata a   beleza da sua alma . Gosto de quase toda obra de Cecília Meireles, mas  especialmente dessas duas poesias...



Lua adversa  


Tenho fases, como a lua
Fases de andar escondida,
fases de vir para a rua...
Perdição da minha vida!
Perdição da vida minha!
Tenho fases de ser tua,
tenho outras de ser sozinha.

Fases que vão e vêm,
no secreto calendário
que um astrólogo arbitrário
inventou para meu uso.
E roda a melancolia
seu interminável fuso! 


Não me encontro com ninguém
(tenho fases como a lua...)
No dia de alguém ser meu
não é dia de eu ser sua...
E, quando chega esse dia,
o outro desapareceu...

ooOoo

Motivo
Eu canto porque o instante existe
e a minha vida está completa.
Não sou alegre nem sou triste:
sou poeta.
Irmã das coisas fugidias,
não sinto gozo nem tormento.
Atravesso noites e dias
no vento.
Se desmorono ou se edifico,
se permaneço ou me desfaço,
- não sei, não sei. 
Não sei se fico , ou passo.
Sei que canto. E a canção é tudo.
Tem sangue eterno a asa ritmada.
E um dia sei que estarei muda:
- mais nada.

 ooOoo
Cecília por ela mesma

"Nasci aqui mesmo no Rio de Janeiro, três meses depois da morte de meu pai, e perdi minha mãe antes dos três anos. Essas e outras mortes ocorridas na família acarretaram muitos contratempos materiais, mas, ao mesmo tempo, me deram, desde pequenina, uma tal intimidade com a Morte que docemente aprendi essas relações entre o Efêmero e o Eterno. (…) Em toda a vida, nunca me esforcei por ganhar nem me espantei por perder. A noção ou o sentimento da transitoriedade de tudo é o fundamento mesmo da minha personalidade.
(…) Minha infância de menina sozinha deu-me duas coisas que parecem negativas, e foram sempre positivas para mim: silêncio e solidão. Essa foi sempre a área de minha vida. Área mágica, onde os caleidoscópios inventaram fabulosos mundos geométricos, onde os relógios revelaram o segredo do seu mecanismo, e as bonecas o jogo do seu olhar. Mais tarde foi nessa área que os livros se abriram, e deixaram sair suas realidades e seus sonhos, em combinação tão harmoniosa que até hoje não compreendo como se possa estabelecer uma separação entre esses dois tempos de vida, unidos como os fios de um pano.'' ( trecho de um escrito de Cecília Meireles) .


Fontes de pesquisa e da  foto aqui  e  aqui
Fonte da imagem janela aqui



ooOoo

Paulo A. Teixeira ( do blog Alma Carioca )  , gostou do post  e  o publicou no  "Alma Carioca "   . Veja aqui 

sábado, 20 de março de 2010

Recomeçar

                                         
   " Começar de novo
   E contar comigo
        Vai valer a pena ..."




 O texto é  muito conhecido. Mas é sempre  bom reler Carlos Drummond de Andrade .


 RECOMEÇAR

Não importa onde você parou, em que momento da vida você cansou, o que importa é que sempre é possível e necessário "recomeçar". Recomeçar é dar uma nova chance a si mesmo. É renovar as esperanças na vida e o mais importante: acreditar em você de novo. 

Sofreu muito nesse período? Foi aprendizado. Chorou muito? Foi limpeza da alma. Ficou com raiva das pessoas? Foi para perdoá-las um dia. Sentiu-se só por diversas vezes? É por que fechaste a porta até para os anjos. Acreditou que tudo estava perdido? Era o início da tua melhora.


Pois é! Agora é hora de reiniciar, de pensar na luz, de encontrar prazer nas coisas simples de novo. Que tal um novo emprego? Uma nova profissão? Um corte de cabelo arrojado, diferente? Um novo curso, ou aquele velho desejo de aprender a pintar, desenhar, dominar o computador, ou qualquer outra coisa? Olha quanto desafio. Quanta coisa nova nesse mundão de meu Deus te esperando. 

Tá se sentindo sozinho? Besteira! tem tanta gente que você afastou com o seu "período de isolamento", tem tanta gente esperando apenas um sorriso teu para "chegar" perto de você. Quando nos trancamos na tristeza nem nós mesmos nos suportamos. Ficamos horríveis. O mau humor vai comendo nosso fígado, até a boca fica amarga. 

Recomeçar! Hoje é um bom dia para começar novos desafios. Onde você quer chegar? Ir alto. Sonhe alto, queira o melhor do melhor, queira coisas boas para a vida. Pensando assim trazemos prá nós aquilo que desejamos. Se pensamos pequeno, coisas pequenas teremos. Já se desejarmos fortemente o melhor e principalmente lutarmos pelo melhor, o melhor vai se instalar na nossa vida. 

                               
E é hoje o dia da faxina mental. Joga fora tudo que te prende ao passado, ao mundinho de coisas tristes, fotos, peças de roupa, papel de bala, ingressos de cinema, bilhetes de viagens e toda aquela tranqueira que guardamos quando nos julgamos apaixonados. Jogue tudo fora. Mas, principalmente, esvazie seu coração. Fique pronto para a vida, para um novo amor. Lembre-se somos apaixonáveis, somos sempre capazes de amar muitas e muitas vezes. Afinal de contas, nós somos o "Amor"! "Porque sou do tamanho daquilo que vejo, e não do tamanho da minha altura." 

(Carlos Drummond de Andrade ) 


Imagens   Amanda Cass           
                                                                                                           
                                                                                
                                                                      
                                                                                                                                                          

quarta-feira, 28 de janeiro de 2009

O Rio e as Nuvens

Era um bonito rio que encontrara seu caminho entre colinas, florestas e prados. Uma jubilosa corrente de água, sempre dançando e cantando enquanto descia do topo da montanha. Era muito jovem naquele tempo, e quando chegou na baixada diminuiu a velocidade. Estava pensando sobre ir até o oceano. Um dia notou as nuvens. Nuvens de todos os tipos, cores e formas. Não fez mais nada durante aqueles dias exceto perseguir as nuvens.

Queria possuir uma nuvem, ter uma só para ele. Mas as nuvens flutuavam e viajavam pelo céu, e sempre mudando suas formas. Às vezes pareciam com um urso, outras vezes pareciam com um cavalo. Por causa desta natureza das nuvens, o rio sofreu muito. Seu prazer, sua alegria tinha se tornado em perseguir as nuvens, uma depois da outra. E desesperada, raivosa e triste tornou-se sua vida. Então, um dia, veio um vento forte e levou todas as nuvens do céu. O céu ficou completamente vazio. O rio pensou que sua vida não tinha mais valor, não existiam mais quaisquer nuvens para perseguir. Quis morrer. - Se não existe nenhuma nuvem, para que eu devo viver? Mas como um rio pode tirar sua própria vida? Naquela noite o rio teve a oportunidade de voltar-se para si mesmo pela primeira vez. Ele tinha corrido, por tanto tempo, atrás de algo fora de si próprio que com isso nunca tinha se visto.

Naquela noite teve a primeira oportunidade de se ouvir: os sons da água colidindo contra as margens. Ao escutar sua própria voz, descobriu algo bastante importante.
Percebeu que o que vinha procurando estava dentro de si mesmo. Descobriu que as nuvens não são nada além de água. As nuvens nascem da água e voltam à água. E descobriu que também era água. Na manhã seguinte, quando o sol brilhava no céu, descobriu algo novo e muito bonito. Viu o céu azul pela primeira vez. Nunca antes havia notado. Tinha estado interessado apenas nas nuvens, e deixara de perceber o céu, que é a casa de todas as nuvens.
Nuvens são mutáveis e inconstantes, mas o céu é estável. Só então percebeu o imenso céu que tinha estado em seu coração desde o inicio.

Esta percepção trouxe-lhe paz e felicidade. Vendo o vasto e maravilhoso céu azul, soube que sua paz e estabilidade nunca mais seriam perdidas. Naquela tarde as nuvens voltaram, mas desta vez não quis possuir nenhuma delas. Podia admirar a beleza de cada nuvem e podia sorrir para todas elas. Quando uma nuvem se aproximava, saudava com carinho e respeito. Quando a nuvem desejava ir embora, acenava feliz e com ternura. Paz e harmonia existiam entre o rio e as nuvens. Naquela noite outra coisa maravilhosa aconteceu. Ao abrir completamente o seu coração para o céu da noite, recebeu a imagem da lua cheia - bonita, redonda, como uma jóia rara - dentro de si. Jamais imaginara poder receber imagem tão bela. A fresca e bela lua viaja no céu.

Quando a mente - rio da vida - está livre, a imagem da bela lua refletirá em cada um. Assim estava a mente do rio naquele momento. Recebeu a imagem daquela lua em seu coração, e a água, as nuvens e a lua deram-se as mãos e caminharam vagarosamente
em direção ao oceano.


ooOoo


Que o rio de cada um de nós possa refletir a bela lua que existe dentro do nosso coração .
 


  Recebi o texto por e-mail e desconheço a autoria
"Quando você sonha sozinho, com os olhos fechados, dormindo, esse sonho é uma ilusão. Mas quando sonhamos juntos, compartilhando o mesmo sonho, acordados e com os olhos bem abertos, então o sonho pode tornar-se realidade!"(Anônimo)

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